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Entomofagia

09/12/2019
Para amenizar o caos climático, pesquisadores sugerem inclusão de insetos na dieta alimentar humana.

Já imaginou se durante aquele almoço de domingo com os amigos fossem servidos grilos, formigas e gafanhotos no lugar da carne de boi ou de frango? Estranho, não? Principalmente porque em nossa cultura, não é comum o hábito de ingerir insetos durante as refeições. Mas, embora a maioria dos brasileiros reaja com repulsa ao ver, por exemplo, um verme no prato, essa prática é bastante comum em outros países e tão banal quanto comer um bife ou filé de peixe.

A esse hábito de comer insetos dá se o nome de entomofagia (entomo =inseto; fagis =de comer), que surgiu com os primeiros hominídeos e, atualmente, já está presente em mais de 100 países. Para alguns estudiosos, o uso de insetos como fonte alimentar é bom para a saúde e pode amenizar os efeitos das mudanças climáticas, principalmente na substituição da carne bovina.

Daqui a uns anos a entomofagia provavelmente não causará mais estranheza na maioria dos povos, porque os insetos tendem a desempenhar um papel fundamental no futuro da humanidade, inclusive nas soluções para os problemas relacionados à fome no mundo. De acordo com a FAO (Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas) o consumo de insetos promove a segurança alimentar porque eles são ricos em nutrientes, de baixo custo, ecológico e “delicioso”.

Insetos comestíveis

Se você é adepto ao camarão, um crustáceo que tem mais de 10 pernas e 2 antenas ou consome leite, líquido branco e gorduroso extraído da glândula excretora dos mamíferos, por que não comer insetos?

Segundo Arnold van Huis, professor de entomologia tropical na Universidade Wageningen, na Holanda, existem 2 mil espécies diferentes de insetos comestíveis com sabores que variam de acordo com a preparação e a dieta dos insetos. Vale ressaltar que no mundo são mais de um milhão de insetos, porém a quantidade para consumo é reduzida: são mais ou menos 443 espécies de besouros, 307 entre formigas, abelhas e vespas, 235 de grilos e gafanhotos e 228 de borboletas e mariposas próprios para serem ingeridos.

Algumas espécies já são tradicionalmente conhecidas no cardápio alimentar de algumas regiões, como grilos e gafanhotos e, de acordo com o professor Arnold, as vantagens de uma alimentação baseada em insetos são muitas, a maioria relacionadas ao meio ambiente. Hoje, a produção animal é responsável por cerca de 15% das emissões de gases-estufa, já no caso dos insetos essas emissões seriam cerca de sete vezes menor. Comparando com a pecuária eles consomem muito menos água do que a criação de gado e são bem mais resistentes à seca.

Vantagens da Entomofagia

Pesquisas da FAO apontam que o consumo de insetos traz diversos benefícios ambientais e também para a sociedade. Veja alguns:

- São alimentos naturais renováveis.
- São compostos de substâncias parecidas com as da carne animal (porco, peixe, boi, frango.
- São ricos em lípidos, proteínas e vitaminas.
- Podem ser criados por mini produtores.
- Não requerem extremo consumo de água e nem precisam de extensas áreas de pasto para criação.
- Podem ajudar a minimizar o problema da fome e da desnutrição nas regiões mais pobres.

Hábitos entomofágicos pelo mundo

Para a cultura brasileira, a ingestão de insetos pode até parecer exótica e estranha mas, em algumas regiões, esse hábito não é tão incomum. Em diversos estados do Brasil, não é nenhum “absurdo” se alimentar de larvas de besouros. Aqui, populações tradicionais fazem uso dessa e de outras “iguarias”, como a formiga do gênero Atta (tanajura) que é degustada pura ou com farofa.

Em outros países como a Austrália, aborígenes se alimentam de insetos e consomem lagartas de mariposa que se criam em raízes de certos vegetais. Na China, insetos e outras iguarias são comercializados vivos para alimentação humana. No caso da Tailândia é normal comer insetos e artrópodes como escorpiões, lacraias e aranhas.

No Japão, o costume é se alimentar de Larvas de Trichoptera (inseto que quando adulto lembra uma mariposa) coletadas nos rios. Já no México, país que mais preserva o costume entomofágico, o consumo é baseado em besouros, percevejos, grilos e larvas de borboletas.

Resistência

Como vimos, os insetos são nutritivos, acessíveis e bem mais sustentáveis. Diante da demanda prevista para 2050, em que mais de nove bilhões de pessoas estarão em disputa  por comida, essas capacidades colocam os insetos em destaque nas discussões globais sobre nutrição.

Por questões culturais, a entomofagia ainda enfrenta grande resistência no Ocidente, porque grande parte da população relaciona os insetos a algo sujo, nojento ou a pragas. No Brasil, o consumo de insetos não possui histórico de uso como alimentos, por isso ainda se tem pouco conhecimento sobre as espécies comestíveis. No entanto, com tantos benefícios para o meio ambiente e para a humanidade vale a pesquisa e o incentivo!