Acontece

Últimos acontecimentos mundiais comentados e contextualizados.

A tecnologia pode fazer o cérebro funcionar melhor?

23/01/2026
Veja o que dizem as pesquisas científicas


A discussão sobre se a tecnologia pode aprimorar o funcionamento do cérebro humano é complexa e multifacetada, envolvendo aspectos de neurociência, psicologia, educação, saúde e ética. Nos últimos anos, pesquisadores têm investigado diversas formas de interação entre tecnologia e funções cognitivas, algumas promissora e outras ainda incertas. De forma geral, o consenso científico atual é que a tecnologia pode ajudar o cérebro a funcionar melhor em determinados contextos, mas não existe uma fórmula mágica universal capaz de aumentar a inteligência de forma ampla e imediata.

Um dos pilares dessa investigação está na chamada  neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de reorganizar suas conexões neurais em resposta à experiência e ao aprendizado. Tecnologias que estimulam essa plasticidade podem, teoricamente, melhorar o desempenho em tarefas específicas. Pesquisas com interfaces cérebro-computador mostram que é possível registrar e decodificar sinais neurais e, por meio de neurofeedback, treinar usuários a autorregular a atividade de certas regiões cerebrais, potencialmente influenciando memória e aprendizagem. Alguns estudos sugerem que esse tipo de tecnologia pode, no futuro, auxiliar tanto pessoas com déficits cognitivos quanto indivíduos saudáveis a aprimorar funções mentais específicas. 

Outro exemplo vem das técnicas de estimulação cerebral não invasiva, como a estimulação transcraniana por corrente contínua ou estimulação aleatória por ruído. Pesquisas publicadas em revistas científicas indicam que sessões curtas de estimulação, acompanhadas de treinamento cognitivo, podem resultar em melhorias na velocidade de cálculo e na memória, com efeitos que persistem por semanas ou meses após a intervenção. Essas modificações parecem refletir alterações duradouras na neuroplasticidade do córtex pré-frontal, área crucial para funções executivas, raciocínio e tomada de decisões. 

Além dessas abordagens calcadas no “hardware”, também há evidências de que tecnologias do tipo “software”, como jogos, realidade aumentada, treinamentos cognitivos assistidos por computador, podem ter efeitos positivos sobre habilidades específicas. Estudos com programas que combinam estímulos físicos e cognitivos usando realidade aumentada, realizados com adultos mais velhos, mostraram melhorias na memória de trabalho, atenção e flexibilidade cognitiva. Esse tipo de intervenção é particularmente interessante porque combina envolvimento corporal e mental, reforçando múltiplas redes neurais simultaneamente. 

Outro campo em expansão é o uso de videogames e jogos digitais para estimular o cérebro. Embora haja certa controvérsia, algumas pesquisas indicam que jogos que exigem planejamento, atenção e tomada de decisões rápidas podem fortalecer capacidades como processamento de informações e atenção sustentada. 

Por outro lado, nem toda tecnologia promete benefício cognitivo direto. Análises críticas de programas tradicionais de “brain training”, softwares que prometem aumentar capacidades mentais gerais, questionam se os ganhos observados em tarefas específicas se transferem para habilidades amplas da vida real. Revisões sistemáticas indicam que os usuários podem melhorar no próprio jogo treinado, mas sem mudanças evidentes na inteligência ou desempenho acadêmico fora daquele contexto. Esses debates ressaltam a necessidade de rigor metodológico e de expectativas realistas, já que aprimorar a memória de trabalho em um jogo não é o mesmo que “ficar mais inteligente” de maneira global.

Além das plataformas de treino e estimulação direta, a tecnologia comum do dia a dia, como computadores, smartphones e tablets, também pode influenciar o cérebro de forma mais indireta. Uma análise recente, envolvendo mais de 400 mil participantes, mostrou que o uso regular e ativo de tecnologia digital está associado a um menor risco de declínio cognitivo em adultos mais velhos. Isso possivelmente porque aprender a usar novas ferramentas digitais estimula o cérebro, favorece conexões neurais e facilita ainteração social, outro fator conhecido por proteger a função cognitiva. 

Entretanto, é fundamental destacar que tecnologia é uma ferramenta, não um substituto automático para treino intelectual e hábitos de vida saudáveis. Muitos especialistas enfatizam que benefícios cognitivos mais robustos consistentes surgem quando a tecnologia é usada de forma intencional e integrada a outros comportamentos saudáveis, como educação contínua, sono adequado, atividade física regular e alimentação balanceada. Esses fatores, aliados ao uso direcionado da tecnologia, criam um ambiente mais propício para o cérebro se desenvolver e manter as funções cerebrais ao longo da vida.

Em resumo, a tecnologia pode ajudar o cérebro a funcionar melhor, dependendo de como é utilizada, por quem e com qual objetivo. 

Utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nosso site. Ao continuar, você concorda com nossa política de privacidade.