Desastre no Himalaia
Uma grande avalanche, seguida de um massivo deslizamento de lama e rochas, atingiu, em 26 de Agosto, a Cordilheira do Himalaia, nas encostas da montanha Langtang Lirung, entre o norte do Nepal e o Tibete, deixando um rastro de morte e destruição. Diversas aldeias praticamente desapareceram, obras de infraestrutura como pontes, estradas e uma hidrelétrica foram destruídas, há centenas de mortos confirmados e os desaparecidos passam de mil.
Entendendo a ciência: por que o fenômeno foi tão destrutivo?
O desastre foi resultado de uma sequência de fenômenos naturais que se combinaram. A monção de verão, entre junho e setembro, trouxe ar carregado de umidade e temperaturas mais altas. O calor favoreceu o derretimento da neve, e a água passou a se infiltrar nas fissuras das geleiras e das rochas. Ao mesmo tempo, dez dias consecutivos de chuvas intensas deixaram as encostas encharcadas e instáveis.
Quando um bloco de gelo se desprendeu, a 5.000 metros de altitude, despencou, colidiu com o terreno molhado. O que poderia ter sido uma avalanche de neve seca transformou-se em um fluxo muito maior de lama, gelo, rochas e outros detritos. Durante a descida, a massa em movimento foi incorporando pedras, terra, neve e água, tornando-se cada vez maior e mais pesada.
A Física ajuda a entender por que uma massa inicialmente parada, no alto de uma montanha, pode adquirir tamanha força. Uma geleira situada em uma encosta sofre a ação de seu próprio peso, que tende a fazê-la se deslocar para baixo. Enquanto permanece estável, forças como o atrito e a resistência do terreno ajudam a mantê-la no lugar. Quando ocorre uma ruptura ou perda de estabilidade, a gravidade passa a dominar e começa a queda.
Quanto maior a altura de onde uma massa cai, maior é a energia que ela pode transformar em movimento. No Himalaia, toneladas de gelo e rochas desceram por uma encosta extremamente íngreme. A energia associada à posição dessa massa foi sendo transformada em energia de movimento e, durante o percurso, transferida para a água, o solo e os demais materiais encontrados pelo caminho.
Quando a avalanche encontra o rio
A destruição não terminou quando a massa chegou ao fundo do vale. Os detritos bloquearam temporariamente o rio Lhende Khola, um afluente no lado tibetano. A barreira artificial reteve água e, quando se rompeu, liberou de uma só vez uma grande quantidade de água, gelo e rochas.
Ao atingir os canais dos rios Bhote Koshi e Trishuli, o nível da água subiu 9 metros em apenas 30 minutos, impedindo qualquer aviso prévio às comunidades. Vilarejos inteiros nas margens do corredor Bhote Koshi–Trishuli, como Timure, Syaphrubesi, Mailung e Trishuli Bazaar, foram inundados ou soterrados.
A geografia do Himalaia tornou o fenômeno ainda mais perigoso. Os vales estreitos e muito inclinados funcionaram como enormes canais naturais, concentrando a água e os detritos e favorecendo o avanço rápido da inundação. E o pior: ainda há risco de novos bloqueios e inundações.
Um tremor que não era terremoto
No início do evento, sensores registraram um tremor que parecia um terremoto de magnitude entre 4,4 e 5,2. Contudo, segundo a correção atribuída ao Serviço Geológico dos EUA (USGS), a energia sísmica foi gerada pelo próprio impacto colossal do colapso da geleira contra o solo, e não por um abalo tectônico real.
E o aquecimento do planeta?
O aquecimento global também pode fazer parte dessa história, pois o aumento das temperaturas pode acelerar o derretimento das geleiras e contribuir para o enfraquecimento de áreas congeladas e de encostas, aumentando a instabilidade desses ambientes.
Mas é importante lembrar que eventos desse tipo normalmente resultam da combinação de vários fatores geológicos, climáticos e físicos.