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A “remada viking” da Noruega e a disputa pela memória dos vikings

10/07/2026
Entenda como a imagem dos vikings foi construída ao longo da história e por que ela ainda desperta debates sobre memória e identidade.


Durante a Copa de 2026, torcedores da Noruega chamaram a atenção ao realizar uma comemoração que ficou conhecida como “remada viking”.

Sentados em fileiras, eles movimentavam os braços como se estivessem remando um barco. A cena rapidamente viralizou nas redes sociais e acabou sendo adotada também pelos jogadores da seleção norueguesa, liderados pelo capitão Martin Ødegaard.

Mas a popularidade da comemoração levantou uma questão interessante: por que a Noruega costuma valorizar tanto a imagem dos vikings, enquanto outros países da região, como Suécia e Dinamarca, fazem isso de maneira mais discreta?

Para responder a essa pergunta, é importante entender quem foram os vikings. Muitas pessoas imaginam os vikings como um único povo ou uma única nação, mas a realidade era diferente. Eles eram grupos que habitavam a Escandinávia, região que atualmente corresponde principalmente à Noruega, à Suécia e à Dinamarca. 

O termo “viking” estava mais relacionado às atividades de navegação, comércio, exploração e guerra realizadas por alguns desses grupos do que a uma identidade nacional única.

Ao longo do tempo, os vikings se tornaram personagens muito presentes na cultura popular. Filmes, séries, jogos e livros frequentemente os retratam como guerreiros fortes, loiros e usando capacetes com chifres. No entanto, essa imagem não corresponde totalmente ao que os historiadores e arqueólogos descobriram. 

Os capacetes vikings encontrados até hoje, por exemplo, não possuíam chifres. Além disso, a sociedade viking era bastante diversa, formada não apenas por guerreiros, mas também por agricultores, comerciantes, artesãos, navegadores e pessoas escravizadas.

Os vikings ficaram conhecidos principalmente por suas habilidades marítimas. Seus navios eram rápidos, resistentes e capazes de navegar tanto em mar aberto quanto em rios. Essa tecnologia permitiu que eles alcançassem lugares distantes, como Islândia, Groenlândia, Escócia e Irlanda, estabelecendo rotas comerciais e fundando novas comunidades.

Entretanto, esse legado histórico também possui aspectos mais controversos. Além das viagens e do comércio, grupos vikings participaram de invasões, saques e conflitos militares. Um dos episódios mais conhecidos foi o ataque ao mosteiro de Lindisfarne, na Inglaterra, em 793. 

Considerado por muitos historiadores o início simbólico da Era Viking, o ataque resultou em destruição, mortes e captura de pessoas para a escravidão.

Por essa razão, muitos especialistas defendem que a história dos vikings deve ser analisada de forma equilibrada. Ao mesmo tempo em que contribuíram para a navegação, o comércio e a formação de diferentes sociedades, também estiveram envolvidos em episódios de violência e exploração.

Essa discussão aparece até hoje nos países nórdicos. Na Noruega, a imagem dos vikings costuma ser utilizada com mais frequência como símbolo nacional, associada à coragem, à aventura e à tradição marítima. Já na Suécia e na Dinamarca, embora o patrimônio histórico viking também seja valorizado, é comum encontrar abordagens que destacam tanto os aspectos positivos quanto os negativos desse passado.

Outro ponto importante é que símbolos vikings já foram apropriados por alguns grupos extremistas para defender ideias de superioridade racial e exclusão social. Isso não significa que todo uso desses símbolos tenha essa finalidade, mas demonstra como elementos históricos podem ganhar novos significados dependendo do contexto em que são utilizados.

Nesse sentido, a chamada “remada viking” não representa diretamente as práticas violentas realizadas por alguns grupos vikings no passado. No entanto, ela evidencia uma seleção de memórias históricas, valorizando principalmente a imagem dos navegadores aventureiros e dos heróis culturais.

Assim, enquanto muitos torcedores enxergam a comemoração apenas como uma forma divertida de celebrar a identidade norueguesa, outros acreditam que ela simplifica uma história muito mais complexa. Afinal, compreender o passado exige reconhecer tanto suas realizações quanto suas contradições.

Para refletir: De que maneira símbolos históricos podem fortalecer a identidade de um país sem deixar de reconhecer os aspectos controversos de sua própria história?

 

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