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Convulsão Política na Bolívia

Por Debora Rodrigues Barbosa
A visão do índio como ser inferior ainda permanece entre os brancos.

Os problemas da Bolívia são antigos. A divisão racial e social é um legado que ainda não foi superado, desde a derrota das evoluídas e ricas populações indígenas pelos exploradores espanhóis. Seus descendentes não conseguiram unificar a nação, respeitando e valorizando as diferenças culturais e raciais. A visão do índio como ser inferior ainda permanece entre os brancos.

Os descendentes dos espanhóis, que vivem nos departamentos (estados) mais abastados, como a chamada Meia Lua, composta por Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, acusam os índios, pelo atraso do país, enquanto os índios culpam os "brancóides" pela exclusão sofrida secularmente e pelas perdas de recursos da Bolívia. Embora a maioria da população seja descendente dos povos nativos, o poder tem permanecido com a elite descendente dos conquistadores.

Em 2006, chegou ao poder, pela primeira vez, um representante da grande massa de nativos indígenas no país. Evo Morales (do Movimento ao Socialismo) assumiu a presidência com grandes desafios, dentre eles, a redução da desigualdade social e dos níveis de corrupção, bem como descriminalização do cultivo da folha da coca. Morales era líder dos camponeses cocaleiros, e seu principal produto, na Bolívia, é usada, desde tempos ancestrais, em rituais e como alimento e remédio, embora o excedente acabe nas mãos do narcotráfico.

Dentre as primeiras ações presidenciais, houve a redução do próprio salário, encampamento das empresas estrangeiras e a revisão dos contratos de fornecimento de gás. O país passou a receber um percentual muito maior do que antes com a venda do produto, capitalizando o governo e fortalecendo a liderança de Morales, internamente. Ao longo do seu governo, o presidente promoveu uma melhor distribuição da renda e da riqueza mineral, bem como retirou milhões de indígenas bolivianos da pobreza absoluta, melhorando índices como analfabetismo, saneamento básico e moradia popular.

A nacionalização do gás boliviano e os maciços investimentos em melhoria das condições dos mais pobres não agradou aos setores sociais mais abastados, acostumados aos históricos privilégios governamentais. Não é difícil entender a revolta desses segmentos populacionais e as manifestações contra o governo de Morales, marcado por controvérsias.

Evo Morales fez muito pela Bolívia! Por outro lado, não deu atenção necessária à diversificação as exportações e ao combate ao tráfico de drogas. Além disso, tinha clara intenção de perpetuação no poder, estratégia que tem sido cada vez menos tolerada, no atual estado de direito. Mudou a constituição para permitir suas contínuas reeleições, o que se provou ser o seu "calcanhar de Aquiles", em sua luta com a oposição.

Até mesmo a Organização dos Estados Americanos (OEA) colocou-se contra suas últimas ações eleitorais, em 2019. Mas, é bom lembrar-se de que, há anos, OEA tem servido como base do intervencionismo estadunidense nos países do continente, seja através de imposições diplomáticas, sanções ou de golpes de estados. Mas, as contínuas reeleições de Evo Morales têm servido de combustível para a movimentação de sua oposição política.

A oposição ao líder indígena é baseada em empresas estrangeiras e nas classes mais abastadas. Muitas famílias que viviam abaixo da linha de pobreza e que foram alçadas à classe média, com as medidas sociais de Evo Morales, voltam-se hoje, contra seu governo.

Na segunda metade do ano de 2019, as manifestações contra o presidente tornaram-se numerosas. Após um referendo que rejeitava a possibilidade de mais uma reeleição de Evo Morales, a Justiça Eleitoral do país autorizou o presidente a tentar o quarto mandato. Após a contagem dos votos que não tinha a confiança dos cidadãos da Bolívia, foi anunciada a vitória de Morales. A população foi às ruas e a OEA alegou fraude. Em resposta, o presidente anunciou novas eleições, colocando mais fogo na fogueira das manifestações populares.

O presidente, sua família, simpatizantes e colaboradores foram perseguidos e a violência instalou-se no país. Os militares, que deixaram de apoiar Morales, negaram-se à reprimir a movimentação da oposição.

Evo Morales, e sua comitiva política, anunciou a renúncia ao governo e partiu para o México, alegando golpe de Estado.